A AIDS volta a ameaçar o Brasil

Infelizmente, o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, lembrado em 1º de dezembro, não traz muitos motivos para comemorar. O Boletim Epidemiológico de HIV/Aids, publicação do Ministério da Saúde, revela novos e preocupantes avanços desse flagelo que atormenta a Humanidade há 35 anos.

A estimativa é que existam hoje no Brasil 827 mil pessoas infectadas, das quais 112 mil (13,5%) não sabem sequer que são portadoras do vírus. De 2010 para cá, surgem 41 mil novos casos a cada ano. Essas novas infecções atingem principalmente os homens, em especial aqueles que fazem sexo com outros homens. Entre os homossexuais masculinos, a incidência da doença, que representava 22,6% dos casos há 11 anos, escalou para 36,5% no ano passado. Se em 2006 a razão era de 1 caso em mulher para 1,2 em homem, em 2015 ela chegou a 1 para 3. Na faixa etária entre 20 e 24 anos, a taxa de detecção, que era de 16,2 casos por 100 mil habitantes em 2005, saltou para 33,1 por 100 mil em 2015.

Uma boa notícia é que o número de casos tem caído entre as mulheres, principalmente na faixa de 25 a 29 anos (32 casos por 100 mil habitantes em 2005 contra a metade disso – 16 por 100 mil  – no ano passado). Ainda assim, nesse mesmo intervalo, o número de infecções cresceu entre as mulheres mais jovens (15 a 19) e mais velhas (acima de 60 anos). Outro dado positivo: a proporção de casos entre crianças menores de cinco anos recuou de 3,9 casos  (2010) para 2,5 casos por 100 mil habitantes (2015).

Que fique bem claro: A AIDS NÃO TEM CURA. É provável que a chegada dos coquetéis antirretrovirais na virada do século tenha arrefecido os temores iniciais das fases mais críticas da epidemia, o que levou muita gente, com destaque para os jovens, a se descuidar do uso da camisinha, incorrendo em comportamentos de risco. Paralelamente, a disseminação de mídias digitais interativas, a exemplo dos aplicativos que facilitam o encontro de parceiros, ampliaram a probabilidade de relacionamentos casuais e, consequentemente, da propagação das infecções. Pesquisa do Ministério da Saúde no ano passado descobriu que 45% dos jovens entrevistados admitem não usar preservativos até mesmo com parceiros eventuais.

A conclusão é que,  como a cura da Aids ainda não passa de um sonho distante, a ação do Ministério da Saúde deve ser reforçada em duas frentes: de uma parte, intensificando as campanhas de sensibilização e esclarecimento sobre a gravidade do problema, sua expansão recente e a necessidade do uso de camisinha para prevenir a infecção, por meio de todos os canais tradicionais e não tradicionais de divulgação (cartilhas, televisão, rádio, redes sociais e aplicativos); de outra parte,  distribuindo não só preservativos como também  medicamentos  capazes de diminuir as chances de contaminação, desde que tomados continuamente.

Um exemplo importante é a truvada, que, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), diminui em até 92% a probabilidade de o vírus HIV invadir as células, apesar de alguns efeitos colaterais, como leves disfunções renais e gastrointestinais. O ministério já anunciou que vai inclui-la na lista de medicamentos gratuitos, com prioridade para grupos de maior  risco, tais como homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo, travestis e transexuais.

Contudo, o enfrentamento de um desafio tão grande não pode ficar restrito ao governo; deve ser assumido por todos nós – formadores de opinião, personalidades midiáticas, educadores, empresários, sindicatos, associações, pais e mães de família etc – para a mais ampla conscientização de toda a sociedade sobre esse mal, que, apesar de terrível, pode ser derrotado, com solidariedade, participação e corresponsabilidade.

Ka



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